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Qualquer dia vais-te fartar de sair comigo.

 

Estas palavras foram o desabafo da minha mãe. Já as ouvi mais que uma vez e geralmente depois de um dia difícil em em que as barreiras foram demais.

Sair de casa quando se tem mobilidade reduzida, quando se tem uma cadeira de rodas, é um esforço:

  • é tentar aceder por rampas "falsas" (tão abruptas que são inúteis),
  • é tentar ir em passeio ao Mercado Municipal de Gaia e descobrir que o único acesso sem escadas, está bloqueado por mesas de esplanada,
  • é ir aos solavancos, porque estacionaram em passeios,
  • é pedir aos caros para pararem, porque estacionaram em passeios,
  • é ir ao Lidl e não ter um carrinho para a cadeira de rodas,
  • é ir ao Continente e não conseguir sair pelas caixas, porque o acessório para a cadeira de rodas não passa,
  • ...

A inconsciência é tal,  que chega a ser chocante a falta de empatia.

 

Há dias fui a uma loja Auchan. Perguntei se tinham carrinhos para cadeira de rodas e apresentaram-me uns cestos que seriam para cadeira de rodas. Nenhuma de nós conseguiu perceber como os cestos poderiam servir para a cadeira de rodas.

Mas o carrinho apareceu. Afinal existia.

Fantástico. Terminamos as compras e vou para uma caixa, onde sou confrontada pelo cúmulo da idiotice: o carrinho-acessório  não pode ser levado para fora da linha das caixas.

Olho para a funcionária e pergunto como levo as compras se não posso levá-las no carro. Não pode. Olha para a funcionária do lado e confirma. Não pode, pois não?

Chegou uma outra funcionária que imediatamente se ofereceu para ir buscar um carro "normal". Naturalmente perguntei como isso resolvia, porque não poderia levar a cadeira e o carro das compras.

 

E aviso já que não aceito que venha aqui uma alminha iluminada sugerir que levasse um de cada vez. Primeiro porque as pessoas com deficiência, sozinhas, não têm essa possibilidade e, por outro, porque eu não deixo a minha mãe sozinha numa cadeira de rodas. Ponto final.

 

Uma funcionária imediatamente se ofereceu para me levar as compras ao carro, mas isso não apaga indignidade, o sentimento de ser um estorvo, de ser um problema a resolver.

 

Qualquer dia vais-te fartar de sair comigo.


8 comentários

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De Red_Wings a 19.10.2021 às 13:24

É triste...
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De Anónimo a 19.10.2021 às 13:48

Infelizmente ainda não vivemos numa sociedade que pensa nas pessoas com mobilidade condicionada...
Acho que a maioria não pensa até ao momento em que se vê privada da sua mobilidade livre.

eu trabalho na área da construção (em particular de uma cadeia de supermercados acima mencionado) e na fase de obra muitas vezes temos constrangimentos que podem vir a condicionar a circulação ou a utilização dos espaços que normalmente escapam à nossa análise por estarmos pouco ou nada conscientes para as dificuldades que, por exemplo, uma pessoa em cadeira de rodas pode sentir..

lamento os temas que acima referiu e, no que me diz respeito, vou tentar ser mais consciente e atenta a estas situações.

Ana
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De Anónimo a 19.10.2021 às 16:27

De fato, é muito triste assistir a certas situações e não estar a autorizada a ajudar/facilitar. Estive recentemente a trabalhar para uma conhecida cadeia de supermercados e passava na minha caixa uma senhora naquelas carrinhos motorizados (parece um triciclo/motorizada) e teria que levar poucas compras de cada vez, pois teria espaço apenas no cesto. Tentei saber se precisaria de ajuda para sair do supermercado, mas não podia sair do "posto".
Em outra ocasião, uma outra senhora pagou suas compras e pretendia acionar a entrega das compras no domicílio, devida à sua reduzida mobilidade e peso das compras.
É uma opção a considerar, mas não resolve a falta de acessos reais e não meramente estéticos, com grande declive.

E ideias para carros/troleys adaptados que possam ir igualmente para a rua, são necessários.
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De Anónimo a 19.10.2021 às 20:33

um exemplo ainda mais irritante dessa situação é quando isso acontece em estabelecimentos de saude, Devia haver legislação no sentido de terem instalações adaptadas à utilização por pessoas com dificuldades motoras ou visuais.
Por exemplo um laboratorio de analises cuja opção é subir degraus ou por uma rampa com uma inclinação tão grande que é impraticavel.
Ou ir fazer um ECG, ligar antes a perguntar se tinham condições de acesso, dizerem que sim e depois chegar lá e dizerem tem de descer as escadas. Quando reclamei disseram, então tem de sair, dar a volta ao edificio e quando chegar lá liga para aqui para a gente ir lá abrir a porta
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De Descontos a 19.10.2021 às 20:41

Concordo. É o que acontece no Hospital de Santo António.
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De Red_Wings a 19.10.2021 às 22:36

Legislação existe. Tenho quase a certeza.
Mas uma coisa é existir legislação, outra é ela ser cumprida...
Isto é Portugal, meus amigos!
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De da Cozinha da Sofia a 20.10.2021 às 11:17

Os arquitectos/ construtores/ responsáveis pela tomada de decisões esquecem-se das pessoas com mobilidade reduzida e infelizmente também com visão reduzida. Penso que no geral se esquecem de quem sai dos parametros que eles consideram "normal". Tenho uma pessoa na família em cadeira de rodas. Infelizmente não pode vir a minha casa pois não tenho elevador. E mesmo que tivesse e lá entrasse não passaria do hall. As ombreiras das portas são mais estreitas que uma cadeira de rodas. Confesso que não reparei em tal coisa aquando da compra da casa e nem sabia, pensava mesmo que era o tipo de coisa com medida standard. Com a minha mãe, tem sido uma longa jornada quanto à visão, desde a inadaptação dos espaços físicos até aos próprios objectos. Fazem as coisas sem contar com as pessoas com os sentidos reduzidos... é tão ridículo! Espero que a quem toma essas decisões a vida não lhe seja irónica e tenham de (não) descer umas escadas que planearam numa cadeira, ou deixar de ir a um sitio porque não conseguem orientação visual.
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De Descontos a 20.10.2021 às 11:40

O problema é que nós nunca pensamos nas limitações até sermos confrontados com elas.
Mas tendo consciência disso, temos TODAS/OS a responsabilidade de ser activistas pela inclusão.

Curioso que fale da arquitectura da sua casa (tenho o mesmo problema) porque tem havido uma grande discussão por causa de uma entrevista do Souto Moura que defendeu que as regras da construção, que obrigam a ombreiras das portas para todos, ficam muito caras e que a generalidade das pessoas não deveria pagar pelos que têm cadeira de rodas. Como se fosse uma escolha e como se não estivéssemos todos sujeitos a uma necessidade dessas.

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